Seja na cultura, na história ou na estrutura física, por exemplo, cada local tem sua especificidade. E, por mais que não gostemos do meio em que crescemos, ele não deixa de exercer uma certa influência sobre o nosso comportamento e sobre a forma em que nos relacionamos com as pessoas e com o mundo. A gente sabe que, aqui no Crea+ Brasil, há uma intensa e constante troca de experiências e conhecimentos entre nós e nossas crianças. Oras fazemos papel de educadores, oras fazemos papel de educandos. Mas, hoje vamos falar de uma experiência que serviu de grande aprendizado para os educadores do CREA que atuam na OC: os aprendizes da escola convidaram os voluntários para visitarem a comunidade onde vivem.

Quem relata um pouco sobre esta experiência é a Roberta Andreotti, 32, uma das nossas voluntárias professoras que entrou no CREA neste ano. Acompanhem:

Como surgiu o convite de visita a comunidade?

Eu não sei dizer o princípio deste convite, porque quando entrei, a Fátima, que é uma das outras professoras dos  aprendizes, comentou que eles já haviam proposto isso no semestre passado, porém, não possível concretizar este convite, então ela quis trazer de volta a possibilidade de fazer a visita em Heliópolis. Mas acho que o principal motivo do convite foi a tentativa de mostrar um pouco da realidade deles, do dia a dia deles. Por exemplo, eles falam que gostam muito de jogar bola; isso eles também fazem no Crea+ Brasil, antes das aulas começarem. Além disso, eles têm um lugar na comunidade que eles chamam de jaula, que é como se fosse uma quadra que é toda fechada com grade. O curioso é que eles sempre falam dessa tal de “jaula”, que foi o primeiro lugar que eles nos levaram para conhecer. É neste lugar, também, que eles jogam bola. Em suma, eu acho que o convite deles surgiu para mostrar um pouco da realidade deles.

Você já conhecia ou já visitou alguma outra comunidade?

Não. Da magnitude do Heliópolis eu nunca tinha conhecido antes, mas eu só conheci uma parte da comunidade. Desse tamanho eu nunca tinha entrado realmente. Mas eles mesmos disseram que se não estivéssemos com eles não conseguiríamos entrar lá, de forma natural, de ir lá só para visitar. Lá é necessário ou estar com alguém ou ter permissão para entrar. Diga-se de passagem, eu conheço gente que trabalha em uma empresa grande do setor automotivo e eles ganharam um prêmio por terem ajudado a comunidade, mais especificamente, a comunidade do Heliópolis.  Na verdade, a ideia deles era reformar alguns prédios, fazer algumas coisas para deixar a comunidade mais organizada, mais bonitinha; também foi necessário conversar com quem “manda” na comunidade. Então, eles têm um esquema de organização muito forte. Inclusive os próprios meninos citaram isso, essa questão de ir acompanhado(a) deles. E foi uma visita bem bacana, foi bem tranquilo, vimos algumas diferenças em relação principalmente à estrutura, aos comércios locais, aos preços praticados; tudo isso é muito diferente. Por exemplo, na parte de dentro do terminal Sacomã você percebe com mais nitidez essa diferença se você tem um olhar atento. Aliás, se você conversar com a Fátima, talvez ela diga que achou interessante o fato de um espaço curto da comunidade ter duas creches. Então, a comunidade tem uma estrutura em que eles não precisam nem sair, porque lá dentro eles encontram tudo o que precisam, o que acaba criando um certo vínculo entre eles.

Você tem algo mais para dizer sobre sua experiência?

Achei muito legal o fato deles quererem que passássemos na frente da casa deles, para mostrar onde moram, aliás, eles têm orgulho de serem nossos guias por lá. Este bate-papo mais íntimo, fora do ambiente escolar, ajuda na aproximação entre professor e aluno. Gostei muito também do fato de alguns deles terem contado a história do condomínio onde alguns deles moram, que é do governo, numa área em que há uns seis anos era dominada pelo tráfico e hoje é um conjunto de prédios populares “bem bonitinhos”, e com uma quadra bem grande no meio dos prédios.

Por: Jakeline Borba – voluntária do CREA+

Anúncios